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segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Deus Seja Louvado


Recentemente o ministério público federal* de São Paulo resolveu pedir à Justiça** que mandassem retirar os dizeres "Deus seja louvado" das notas de Real. A justificativa, em reprodução de trecho do G1:

O procurador regional dos Direitos do Cidadão, Jefferson Aparecido Dias, reconhece que a maioria da população segue religiões de origem cristã (católicos e evangélicos), mas lembra que o país é um Estado laico. “Imaginemos a cédula de real com as seguintes expressões: 'Alá seja louvado', 'Buda seja louvado', 'Salve Oxossi', 'Salve Lord Ganesha', 'Deus Não existe'”, argumenta.

Francamente, eu gostei mais dessa última idéia. Não tira, não, só coloca as outras alternativas todas, pra ser igualitário. E, pra evitar que as cédulas ficassem parecendo bulas de remédio, seria legal dividir uma nota para cada religião. Eu tomei a liberdade de adequar a cédula de 20 à versão "Salve Lord Ganesha", e acho que ficou até bem bonitinha:



Notem que eu deixei o mico ali no canto porque respeito tradições e porque me entediei da tarefa. A razão #2 é também responsável por eu sugerir verbalmente que as únicas alterações feitas na "Alá seja louvado" sejam colocar um turbante na efígie rebuplicana e um colete-bomba no bichinho do verso.

Já para a versão "Deus Não Existe", a imagem do verso poderia ser no mesmo espírito daquelas dos versos de cigarros. Eu sugiro também que seja criada uma cédula nova para abrigar essa frase, cujo valor será sempre o de um salário mínimo. Aliás, a atual, do "Deus seja louvado", podia ser exatamente igual, só que valendo um dízimo a menos.

*não vou capitalizar porque algo que é um ministério, é público e é federal está muito bem só sendo descrito pelo nome e eu posso muito bem economizar o desgaste dos meus dedos na tecla Shift
**preciso capitalizar porque, nesse caso, existiria uma diferença conceitual enorme

quinta-feira, 26 de abril de 2012

A Vida Como Ela É

Ou "Da Próxima Vez Eu Uso Um Papel Novo":
No próximo nível, já estou antecipando ganhar a habilidade leucemia.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Ponto de Vista

Opa! Ano de fim do mundo! Tudo novo no blog! Anagramas abandonados! O resto continua exatamente igual! Ok, acertado o comunicado das revoluções, vamos sem nenhuma delonga ao assunto do dia: diagramas de como um relacionamento é

IDEALIZADO POR UMA CRIANÇA:


IDEALIZADO POR UM HOMEM:


IDEALIZADO POR UMA MULHER:


TESTEMUNHADO POR ASSISTENTES SOCIAIS:

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

As Coisa Lambida

Eu sou inocente demais em se tratando de culinária. Do alto da minha jactância, imaginei ser capaz de fazer macarrão caseiro. Afinal, se a D. Maria, aqui da mercearia, faz um delicioso, e com um pé nas costas, por que eu não haveria de conseguir? Bom... o relato atual é prova de que eu subestimei D. Maria. Desculpa aí.

Comecei pegando a receita que me pareceu mais inofensiva e realizei-a. Virou uma bola gosmenta que foi ficando menos pegajosa à medida em que eu fui socando, ao contrário da maioria dos bebês. Terminada a surra, eu a estiquei em uma bandeja, num formato de disco, e deixei que ela secasse por uns dois ou três dias. Finalmente chegou a hora de cortar, e foi quando eu percebi que alguma coisa havia saído errado. Ou muito certo, do meu ponto de vista otimista. Eu pensei “ah, sim, 'grano duro'” ao pegar em minhas mãos o que deveria ser uma nova forma de pizza. E coloquei-me a retalhar, com a ajuda de uma faca extremamente afiada. Quando notei um erro no meu design arredondado. As fotos dos primeiros cortes estão abaixo. Eu gostaria de fazer como nos restaurantes chiques e deixar as imagens com OnMouseOver, mas o Blogger é meio pentelho.


Até esse ponto eu estava meramente retirando as rebarbas do círculo. Terminado meu trabalho, a coisa tomou um formato um pouco mais reconhecível, mas nem por isso menos aterrorizante.


Veja também, meu método de produção altamente artesanal.



Então segui cortando, de modo cada vez mais displicente e preguiçoso, até sobrar um fiapo de massa que se parece um pouco com um golfinho.



Aí é a hora de olhar para o que você tem em mãos e curtir um pouco aquele sentimento de fracasso iminente. Uma massa quebradiça, amarelada demais, dura e mal picada. As chances de aquilo dar uma boa macarronada eram pequenas, e aparentemente o golfinho estava sabendo disso, pelo modo como encarava aquela montanha curiosa de fiapos de farinha socada com poucos indícios de critério. Encarando e rindo, encarando e julgando minhas habilidades, encarando e achando que ele era melhor que eu, encarando e lembrando de como riam de mim na escola... bom, pra encurtar a história, o golfinho se foi.


Sei lá. Vai ver macarrão caseiro é como sexo. A primeira tentativa não é lá essas coisas e você tem que ir se aprimorando até sair algo gostoso e você ganhar confiança pra oferecer para um grupo de amigos. Até lá, o negócio é comprar da D. Maria, aqui da mercearia, que faz um delicioso, e com um pé nas costas.

Violento Fumo Sazonado

Um feliz ano novo a todos. Aproveito para lembrar vocês da importância de ligar o Google SafeSearch nesses tempos modernos de publicidade, estresse e poluição.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Raspadura* Neste Niño

*eu gostaria que você lesse "raspa a dura", ok?

Ensinando a Estuprar, um livro que adquiri recentemente, é muito esclarecedor. Irei relatar aqui a técnica básica para que todos aqueles que querem muito entrar para o ramo mas são ainda inexperientes e não têm professores disponíveis nem bundinhas bonitas para atraí-los em becos escuros. A teoria é incrivelmente simples, acompanhem:

Aproxime-se por trás com um soco no baço da vítima.

Pegue-a pelo braço. Mas, antes de dar ouvidos ao seu Compadre Washington interior, jogá-la lá no meio, meter em cima e meter embaixo...

...domine-a e desacorde-a.

Leve-a a um local isolado onde você terá a certeza de não ser interrompido.

Aproxime-se por trás.

Chegue assim, como quem não quer nada.

A partir daí, é só agir naturalmente e seguir seus instintos. Especificamente aqueles que sugerirem rola pra dentro. Tente ir aos poucos, à medida em que se sentir confortável. O ideal é ambos estarem relaxados para que o estupro seja uma atividade prazerosa. Também é importante usar camisinha, porque você nunca sabe quem pode já ter estuprado sua vítima antes. Se você pratica em Boituva, provavelmente eu, e aí eu te garanto que você precisa da camisinha.

Não esqueça, após a ejaculação, de devolver a vítima ao local do ataque original. Lembre-se de que é muito desagradável acordar em um lugar desconhecido e um pouco de cortesia não faz mal a ninguém. Quem sabe, assim, possamos, aos poucos, retirar o mau estigma social do qual hoje o estupro é obrigado a gozar. Caso opte por terminar com um assassinato ou ele ocorra por acidente, livre-se do corpo em uma lixeira.

Com o tempo, você poderá tentar outras formas de abuso e, quando confortável, até chamar um amigo para participar de um estupro conjunto.


domingo, 10 de outubro de 2010

Respeito Teso

Estes dias eu resolvi jogar novamente alguns clássicos da minha infância e me deparei com Terranigma. É um joguinho muito interessante para Super Nintendo do qual você provavelmente nunca ouviu falar. À primeira vista, como você pode ver nas imagens abaixo, parece ser só um jogo normal sobre romance:


Não necessariamente só sobre as partes mais românticas dos romances, claro. Terranigma também mostra suas facetas menos incomuns, como biscates aproveitadoras:


O sempre gostoso date rape:


O surpreendente glory hole:


A popular traição com negões:


E até o vocabulário reduzido de tais negões comedores:


Hum... isso me pareceu um pouco estereotipado, não? Tudo bem, é verdade. Tem uma alta porcentagem de sua mulher estar, neste momento, dando. E uma alta porcentagem de o cara que a está a comer ser um negão. E uma alta porcentagem de ele dizer "arrrrrrrgh!", exclusivamente, numa conversa informal. Mas se, ainda assim, você ficou um pouco incomodado(a) com o modo como isso foi colocado, então esteja já avisado(a) para passar longe desse jogo. Porque caso você seja íntegro(a), vai ficar incomodado com muito mais dos estereótipos de Terranigma. Por exemplo, depois de um certo tempo de jogatina, você chega a uma cidade chamada Liotto, perto da Amazônia. Veja se ela te lembra algum lugar:



Mais dicas? Ok, olhe bem para o que está escrito nos camelôs e para o pôster do quarto do menino. Clique na imagem para aumentá-la, caso seja cegueta:



Certo? Sacou? Ainda não? Tá bom, então eu apelo:


É, é nós na fita. Se você não conhece muito do Brasil em termos de hábitos, costumes, maravilhas ou personagens famosos, é só ver que a população é formada, em grande parte, por palhaços. Se você vive aqui, com certeza sabe disso:



Até nossa culinária é fielmente representada no jogo:



A saber, eu selecionei "no". Era o mais perto que eu podia chegar de "puta merda, nega louca, que diabos você está dizendo? E que porra é 'suras'? Olha.... pensando bem, eu nem quero saber. Só me dá uma caipilina e vaza". Se tivesse essa opção, o jogo seria perfeito. Não tendo, ele fica só sendo muito bom. Para encerrar, uma salva de palmas para os japoneses e algumas imagens que têm chances de serem vistas como ofensivas:


terça-feira, 16 de março de 2010

Salame Malvado Livra Psique

Embora o título sugira uma tese em defesa do estupro, eu vou deixar para publicá-la mais adiante (provavelmente no dia internacional do sexo-surpresa). Hoje o plano é derrubar a idéia "Uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas tente dizer isso com uma imagem." como sendo algo impossível de se realizar. Infelizmente eu descobri que habilidade de desenho - ou pelo menos qualquer semblante de senso estético - seria uma ferramenta essencial para essa empreitada. E na arte, como no sexo, existem crianças de quatro anos tecnicamente melhores e de gostos mais refinados que o meu.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Cinematica Do Figo

Este blog está ficando imagético demais pro meu gosto, mas eu preciso comentar duas más idéias vistas no mesmo dia.


A primeira é esse cachorro aí, que deve ser o mais anti-higiênico que eu já vi. De acordo com a plaquinha, ele quer que você não limpe a parte mais introvertida das suas nádegas. Em defesa dele, caso alguém estivesse prestes a me esfregar num cu sabidamente sujo, eu também trataria de me munir de plaquinha semelhante. O que torna o desenho duplamente perturbador, porque eu não quero esfregar cachorros fofinhos no meu cu, salvo no carnaval. Sério, não rabisquem nada do meu papel higiênico. Não tem possibilidade no mundo de um desenho que não vá me perturbar.


Aqui vem outra idéia curiosamente prática, mas que também não deixa ninguém mentalmente confortável. Já é um hospital do SUS, que não é conhecido por aí como o melhor sistema de saúde que se pode conseguir, e os caras resolvem colocar, num táxi estrategicamente posicionado frente à entrada, um anúncio que, se eficiente, é altamente aterrorizante para os pacientes. Eu, pessoalmente, ia a esse hospital na semana passada; mas, depois de ler o vidro traseiro, resolvi me costurar em casa, mesmo. Ficou quase bom e eu ainda econimizei uns trocados usando carne de segunda.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

domingo, 2 de agosto de 2009

Eu Que o Pus Doido, Ventre Fervente! Quê?

Breve introdução: eu sempre imaginei que acabaria por plagiar alguém no decorrer da história deste blog. Nunca imaginei que seria eu mesmo o plagiado. Mas ocorre que eu me apossei dos conteúdos de um HD antigo e encontrei em meio às minhas porcarias, não surpreendentemente, uma porcaria. Em forma de texto. Uma história verídica de viagens, emoções, carros velozes, reviravoltas mas, infelizmente por falta de orçamento, sem mulheres gostosíssimas de biquíni, o que acaba com as chances da minha ligeira epopéia virar um filme do Michael Bay. De qualquer forma, vai o texto abaixo sobre a Super Máquina do mal, o carro que me levou a usar motos, o carro que Satã criou num dia em que estava sem noção. A propósito, o texto já não é muito bom e como está bem desatualizado, sendo de uns bons quatro anos atrás, eu resolvi torná-lo visualmente mais atraentre com algumas ilustrações. Aí vai:

Pode Vir Quente Que Eu Estou Fervendo

Eu tenho uma linha de pensamento bastante romântica no que tange a veículos automotivos. Acredito que ele deva poluir pouco e retratar seu usuário com alguma precisão. Isso está cada vez mais raro hoje em dia, com todos esses Gols e Palios andando pelas ruas, todos iguais, quase indistingüíveis. Mesmo carros mais caros, portanto mais raros, quando avistados, têm enormes chances de estarem perto de uma ou duas duplicatas.

Não que eu seja defensor ferrenho de carros "tunados", super potentes, preparados para rachas, cheios de porcarias como aerofólios gigantes, saias, luzes de neon, pinturas psicodélicas. Não para meu uso, pelo menos, porque devo dizer que um carro desses só me agrada por dizer muito sobre seu dono - uma besta que pegou um carro adequado e cagou nele todo.

Veículo tunado

Pois bem. Eu possuía um Siena cinza. Em nada especial, a não ser pelo aerofólio preto na parte traseira. E pelo câmbio de seis marchas pouco esperto. O que acontecia era ser a sexta marcha tão forte quanto qualquer quinta. E a primeira tão forte quanto qualquer primeira. Então tudo que eu fazia era ter que mudar mais marchas no mesmo espaço de tempo sem nenhuma vantagem. Ah, e eu preciso mencionar os amassados, ralados e descascados. Com o passar dos anos esse carro foi sofrendo alguns acidentes de percurso. Três carros, estando um deles imóvel no momento da colisão, e três pilastras, todas elas imóveis, apesar de alguns depoimentos meus.

É claro que eu nunca consertei um arranhão sequer. O martelinho de ouro é pura hipocrisia automotiva. Ostente suas cicatrizes de batalha com orgulho! Você sobreviveu ao trânsito! Assuma que você é braço-duro! E economize uns trocados. Não que isso importe; o relevante mesmo é o negócio de honra, ideologia e essas palhaçadas todas.

Some-se a isso o fato de o ponteiro de temperatura ter um misto de epilepsia com parkinson, sendo completamente maluco e ineficaz, e você tem um carro bacana, involuntariamente personalizado, reconhecível à distância pelo reluzir do ferro retorcido enferrujado. Eu gostava desse carro. Mas, cansado de uma vida de maus tratos, ele resolveu fugir numa noite gélida de verão, saindo da rua Saint Hilaire para nunca mais ser visto novamente por olhos humanos. Pelo menos não inteiro, eu acho.

Descrição do comparsa do veículo na fuga. Aparentemente atende pelo nome de iStockphoto.

Resumindo uma parte muito, muito (e muito) longa, fiz o B.O. e dei entrada na papelada do seguro. E recebi o dinheiro. A seguradora demorou para pagar, mas eu tenho a impressão de que fiquei mais tempo sentado na delegacia para fazer o boletim que as três semanas transcorridas desde que saí de lá até o dinheiro cair nas minhas mãos.

Estando com a maior sensação de riqueza da minha vida, saí em busca de um veículo. Longas pesquisas depois, pretendia pegar outro Siena, mas dessa vez um com o motor mais econômico da Fiat (aliás, o motor 1.0 mais econômico do mercado - tomem nota). Longas pesquisas depois e desisti de comprar o Siena porque o que eu havia ganhado do seguro não chegava nem perto de comprar outro carro. A menos que fosse velho. Foi quando eu tive a iluminação: por que comprar um desses carrinhos modernos que parecem de brinquedo se eu posso comprar um brinquedão antigo que quase parece um carro?

Então pesquisei e reduzi minha lista de veículos até chegar aos finalistas: Del Rey, Voyage, Santana e Opala. Desses eu estava mais inclinado a comprar o Opalão. Longas pesquisas depois, ao saber que consumo médio de um Diplomata era 4km/l, eu fiquei bastante desestimulado. E chutei o pau da barraca de vez. Eu ia pegar um carro velho e gastar o resto da grana do seguro para colocá-lo de pé, então que isso fosse feito com um carro que desse gosto em ser visto de pé. Quando migrei minha mente para os foras-de-série.

O vencedor, após uma grande contenda com o Puma, foi o Miura. E, para encurtar uma longa história (e, claro, algumas longas pesquisas), comprei um Miura Targa, um carro com o qual eu me identifiquei bastante. Ambos preferimos ficar longe de injeções, temos cabeças abertas, roncamos, nos recusamos a trabalhar de manhã e temos até a mesma idade. Agora pretendo virar alcóolatra para sermos um par perfeito. Até chamamos atenção na rua do mesmo modo - posso ver as cabeças virando e pensando "não acredito que essa porcaria funcione" agora esteja eu de carro ou a pé.

Miura

Arrumei uma coisinha aqui e outra coisinha ali, rodava pela cidade já naturalmente, embora não pudesse estacionar porque estava sem travas nas portas. Como ainda estou. E porque o freio de mão não funciona. Como já não funcionava. De qualquer forma, decidi ir de São Paulo a Mogi das Cruzes com meu veículo para testar seu desempenho na estrada e para mostrá-lo a meus familiares. O que retrata bem o conceito "uma péssima idéia porcamente executada".

Primeiramente o vidraceiro responsável por instalar travas elétricas, alarme e borrachas novas de vedação decidiu começar a trabalhar quando eu cheguei para buscar o carro. Preocupado com o rodízio, já que a placa tem final 0, o que me impede de circular com meu parceiro carburado pelo centro expandido às sextas, pedi para que apenas montassem e desmontassem a porta, deixando o vidro torto, para que eu pudesse sair e não levar multas. Não, na realidade não foi o que eu pedi. Mas foi o que fizeram enquanto eu "almoçava" um "sanduíche" bastante insalubre em uma "padaria" ao lado. Nesse meio-tempo, aliás, pedi o telefone para ligar para meu bom amigo Gilberto "Ay ay ay mis tacos" Silveira Gornati para avisar que não poderia levá-lo para o interior. Fui xingado e mandei-o entuchar algumas coisas em seu ânus como é de praxe. E dali a pouco o dono do estabalecimento de vidros, borrachas e companhia ligou para se desculpar, pois alguém tinha dito a ele que eu estava muito bravo pelo serviço estar atrasado. Saí de lá às quatro, esperando estar já na Dutra às cinco.

Acontece que eu fui muito bem, esbanjando felicidade, até a Marginal Tietê. Quando fiquei ainda mais feliz porque o afogador pôde ser desligado - o carro já estava quente e não morria mais. Percebi que estava com vontade de urinar. Guarde esta informação. Radiante, fui para a pista expressa, que estava tão parada quanto a interior, e fiquei ouvindo minhas musiquinhas de boiola serem tocadas no rádio. Dali a alguns segundos notei que o carro estava com a temperatura bem elevada. Pensei "droga de trânsito, eu e meu possante temos que ficar suando entre esses caminhões porcos!". Uma luz no painel acendeu. Com o desenho de um termômetro. Rezei para ser a luz que indica quando o termômetro do carro está quebrado, o que explicaria o porquê de ele estar marcando uma temperatura tão absurdamente elevada.

O indicador de temperatura me preocupava, entre outros avisos curiosos.

Um certo desconforto na espinha e a grande nuvem que saía do capô me diziam que não era nada disso. E, mesmo que eu não entendesse nada de carros, a expressão facial de um motorista de caminhão que estava ao lado já me dizia tudo que eu precisava saber - eu estava fodido. Todos me deram passagem, mas a essa altura o carro já não obedecia meus comandos. Tive que carregá-lo para o acostamento eu mesmo, cortando três faixas da Marginal. Isso pode não parecer muito divertido, mas quando você chega à parte de terra e percebe que está patinando porque não tem mais como firmar o pé no chão para empurrar seu veículo velho e fervido... meu amigo, que coisa engraçada. Especialmente para quem vê de dentro de um carro moderno e confortável. Então puxei o freio de mão. E abri o capô. E sentei. Olhei para meus gatos, socados em uma caixa de tranporte. Pela primeira vez no dia, pensei: "meu carro antigo não fazia isso...".

Um caminhoneiro estava parado, também, porque o trânsito de produtos inflamáveis não é permitido à tarde, no horário do rush. Fiquei batendo um bom papo com ele sobre carros velhos, acidentes automobilísticos, estradas e alternativas para burlar pedágios. Duas horas depois, já às sete, pedi a ele um pouco de água. Ele não tinha, mas abriu o reservatório do caminhão e me deu um bocado da água que o caminhão utilizava para conter e proteger os produtos químicos. E, enquanto eu colocava aquela água no meu radiador, pensava em criancinhas morrendo e famílias sendo explodidas na estrada porque eu tinha consumido a água de proteção do caminhão que bateu em uma carreta que derrapou na poça d'água quente que meu carro tinha deixado na pista. O que me fez abrir um sorriso discreto e pedir mais água.

Em uma nota paralela, sempre fui contra o arremesso de lixo nas estradas. Mas foi uma garrafa usada e suja de X-tapa que me permitiu levar água do caminhão até meu radiador, então sinto que devo alguma coisa aos porcos que causam enchentes. Talvez uma bifa e um beijo.

Prossegui, então, rumo a um posto, onde completaria o nível de água e seguiria viagem - ou voltaria para casa. Não cheguei a andar cem metros e parei porque o carro estava fervendo. Repeti todo o processo de abrir o capô, sentar, olhar os gatos etc. E fiquei parado, vendo uma Pampa à minha frente, parada também. Vinte minutos depois, a Pampa ainda parada, ocorreu-me que eu poderia ajudar em alguma coisa (e pedir um celular antes que minha mãe acionasse as forças armadas). Andei até lá e vi um mecânico gordo, sujo e asqueiroso bufando no motor deles. Tanto melhor. Pedi o celular e falei brevemente com o mecânico. Ele grunhiu alguma coisa em resposta e deduzi que ele daria uma olhadinha no meu veículo a seguir.

Enquanto isso liguei para minha mãe avisando que estava parado perto do Playcenter com o carro, mas que decidiria o que fazer e resolveria de alguma forma. Agradeci à senhora da Pampa por ter-me emprestado o celular e fui com o gorducho nojento ao meu carro. Quis pedir "por favor olhe meu carro sem tocá-lo", mas achei melhor deixar o sebo daqueles dedos lingüicentos entrar nas engrenagens para auxiliar na lubrificação e evitar o desgaste das peças.

Alguns olhares depois, ele mordeu alguns fios, desencapando-os. Pensei que fosse apenas uma pausa para uma boquinha, mas ele logo colocou os fios no meu carro e ligou a ventoinha diretamente na bateria. E disse que eu podia ir embora. Perguntei quanto devia e, neste momento, minha vida mudou. Parei de crer na bondade do ser humano. O filho da puta, cretino, escroto, corno manso, porco gordurento, cuzão, resto de porra seca regada a donuts, docinho de coco bigodudo do inferno, mulherzinha da cela do Tyson, cobrou oitenta reais pela porquice. Como eu estava animado, fiz papel de trouxa. Paguei, liguei o carro e fui embora. E parei no próximo acostamento porque estava fervendo de novo. Pela terceira vez. Mas quem está contando?

Mecânico

Foi a segunda vez no dia em que pensei "meu carro antigo não fazia isso...". Tudo bem. Fiquei lá e pensei em esperar o gordo escroto passar para que ele desse outra olhadinha, dessa vez grátis, sob ameaça de eu arrancar aquele bigode com meu calcanhar. O que seria uma pena, porque eu teria que jogar um bom tênis fora. Em vez disso parou um motoqueiro, olhou o carro e disse uma frase que salvou o dia.

-Que que houve?

-[Só me faltava mesmo um curioso de merda] Está fervendo.

-Deve ser a válvula entupida.

-[Merda, curioso e metido a entendido] É a ventoinha.

-Certeza? Geralmente é válvula.

-[E se eu chutasse esse cara agora?] Já falei com um mecânico.

-E você acha que eu sou o quê? Dono de uma padaria?

-[...] ...

Depois desse diálogo interessantíssimo, ele deu uma olhada no carro, enquanto um cara com uma Fiorino estacionava com o carro fervido também. Ele havia sido atendido havia pouco tempo por esse mesmo mecânico motoqueiro. Tinha desentupido a válvula.

Ocorria que a ventoinha dele não estava funcionando, também. E, vendo os dois carros, o mecânico ia mexendo, fuçando e pedia água. Eu buscava a água. Busquei quatro galões. O que quer dizer que eu atravessei a Marginal oito vezes. Com galões d'água. Sexta à noite, às oito e pouco. Excitante. Quando eu cheguei, pediram que eu segurasse uma peça do meu carro rente à calçada. Foi o que eu fiz. A peça foi despedaçada por um martelo enquanto meu pensamento exato era "legal, não conseguiu consertar, ficou com raiva e quebrou! Agora empresta o martelo aqui para eu bater no capô com tudo!". Acontece que ele arrancou um pedaço da válvula termostática para que meu carro ficasse o mais frio possível. Ligamos para testar. Ferveu. Tive pensamentos impuros. E o guincho encostou e disse "vim buscar esse carro".


Cinco segundos, mas muito mais tempo dentro da minha cabeça, depois, eu consegui perguntar um "quê?" muito xoxo. Ele reiterou: havia vindo com o propósito de buscar meu carro. Pensei que fosse a Morte dos veículos. Ou que fosse o guincho da prefeitura e o prefeito tivesse decretado meu carro uma calamidade. Talvez os deuses estivessem dizendo "renda-se, seu grande imbecil". Pensei nos meus gatos. E no sanduíche insalubre do "almoço".

Levou algum tempo até que eu conectasse o guincho à minha mãe (mentalmente, claro, embora naquele momento eu tenha desejado ir além). O que ocorre é que ela ligou para o meu pai, que ligou para um mecânico, que ligou para o guincho. E procurando por mim também estavam a CET, a DERSA e alguns comandos especiais familiares. A Polícia Rodoviária, no entanto, não desperdiça recursos procurando gente pela Marginal, como disse à minha estimada genitora - ponto para eles!

Tá certo.

Reembolsado pela viagem inútil o guincho e resolvido o problema do motor com algumas gambiarras extras, o mecânico foi embora (não antes de um conflito civilizado com um maluco que eu preguiçosamente vou omitir), finalmente imaginei poder seguir viagem. O guincho, no entanto, muito gentil, ofereceu-se para me escoltar por alguns quilômetros, para ter a certeza de que eu seguiria bem a viagem. Tive vontade de enfiar a cabeça do bom homem nas câmaras de explosão do meu veículo e no meu joelho, alternadamente. Não que eu seja a pessoa mais ingrata do mundo. O que ocorre é que minha bexiga já estava explodindo. Cace nas linhas acima desde quando eu estava com o desejo forte de urinar! Puta que pariu, umas quatro horas espremendo minha bexiga e aquele maldito ser do inferno se oferece para fazer um favor? Aceitei, espumando de ódio e agradecendo, entrei no carro e pisei o mais profundamente que consegui do acelerador, esperando que o lento guincho me perdesse de vista. E o cara sempre ali, de forma que eu não poderia ir para a pista interior e parar em um posto. Mas quinze minutos depois eu cheguei à Ayrton Senna, já bem escura, parei o carro no acostamento e corri como o Cadeirudo, corri feito uma gazela tresloucada com um rojão atolado na bunda* e resolvi meus problemas em um grande barranco deserto.

E, muito feliz, para completar minha epopéia, tirei a capota do meu veículo, liguei os faróis ocultos e pisei fundo. Enquanto eu ensurdecia por causa do vento, aparava em minha testa alguns gramas de carga do caminhão de lixo à minha frente e me divertia loucamente com o brinquedão, pensei pela terceira e última vez naquele dia: "meu carro antigo não fazia isso". E rodei por mais algumas horas antes de ter que deixá-lo no mecânico. Onde está até a presente data de finalização deste texto.

*Nenhum animal foi ferido na confecção desta metáfora.

Você leu tudo. Você merece.