sexta-feira, 19 de junho de 2009

Sim, Dedada Porque Um Senhorio Devasso Gozô Cem

Outro dia eu li um longo comentário choroso a respeito do vôo 447 da Air France no site de um comediante (B, diga-se de passagem). Tem algo errado nisso. Aliás tem algo duplamente errado. Em primeiro lugar, foda-se o vôo da Air France.

De um ponto de vista marxista, é bom que essa porcaria tenha caído. Só tinha ricaços a bordo daquele ônibus dos abonados, o que faz desse vôo uma vitória para a classe menos abonada.

De um ponto de vista progressista, nos demos bem. Tinha gente da família real naquele vôo, pelo amor de Deus. Quer coisa mais ultrapassada?

De um ponto de vista ambiental, é ótimo um avião a menos no mundo. Aviões são não só o meio de transporte menos eficiente em termos de consumo de combustível, mas também o mais eficaz em se tratando de poluição atmosférica, porque já jogam suas porcarias já nas mais altas camadas gasosas. É tipo o Sedex da Exxon Mobil entregando direto na casa do capeta. Eu não me lembro se o Capitão Planeta alguma vez salvou um avião no desenho, mas se salvou, eu vou parar de acreditar na integridade do azulão.

De um ponto de vista relativista, muito mais gente morre todos os dias em outras circunstâncias diversas e não têm essa atenção toda. Se você quiser mesmo desperdiçar sua empatia na morte de um monte de gente que você não conhece, então pra não ser hipócrita tem mais uns milhõezinhos igualmente importantes pra você. Mas você não se sente mal por eles, se sente? Seu merda.

De um ponto de vista malthusiano, é ótimo ter menos gente na Terra. Já estamos sofrendo com superpopulação e consumindo mais recursos do que seria sustentável. Vamos lá, vamos matar mais um bilhãozinho e aí o negócio começa a ficar bom.

De um ponto de vista humanitário, embora seja trágico ter perdido 228 vidas, é preciso se lembrar que, dessas, 61 eram francesas, então acaba compensando.

De um ponto de vista teocrático, Deus fez o homem pra ficar com os pés plantados no chão, e as aves pra voar. O homem tenta voar, Deus joga um raio nesses filhos da puta que não entendem as regras. Um raio, um efeito estufa, um buraquinho na camada de ozônio... aparentemente Deus é ambientalista.

De um ponto de vista waterworldiano, quando os oceanos engolirem a Terra, nós vamos ter mais um pedaços de metal boiando por aí para construir plataformas e barquinhos.

De um ponto de vista schopenháurico (é!), livramos uma porrada de pessoas de um ciclo infindável de sofrimento e ansiedade. Eu acho que isso engloba também Sartre, Pearce e mais uma porrada de pentelhos.

De um ponto de vista gravitacional, deu tudo certo, então taí um ponto pras leis de Newton. Imagina a merda que seria se o avião falhasse mas não caísse, ficasse parado no ar. O mundo ia virar de pernas pro ar, a lua se soltaria da Terra, a Terra do Sol, a vida como a conhecemos deixaria de existir!

Eu tenho outras trocentas razões, mas daqui em diante elas vão perdendo um pouco do poder argumentativo percebido, então eu vou deixar só essas aí, a título de amostra. Bom, então está bem estabelecido que o vôo da Air France que se foda, certo? Vamos passar à segunda parte do erro: um comediante (mesmo que muito, muito ruim) não deveria descer ao nível de escrever algo triste. Isso não serve só pra Air France, mas também pra qualquer escritor que troque a comédia pelo drama, qualquer ator que troque, digamos, Ace Ventura por 23 (ou ainda tente mesclar os gêneros, criando Cable Guy). Humor é moralmente superior ao drama.

Humor tem um efeito agradável no receptor. Isso já é um bom começo. Você se sente mal, geralmente, ao experimentar tristeza. E se sente bem quando experimenta humor. Sabendo disso, quem é o monstro que gostaria de espalhar tristeza mundo afora? Um filho da puta tipo o Walt Disney, que fez coisas como Bambi; milhares de autores, atores de diretores. É pura maldade. Tudo bem, a gente tem um mecanismo esquisito que nos faz achar bonitas as coisas tristes, mas é esse mesmo mecanismo que nos faz perseguir essa tristeza a fim de podermos ser “bonitos”, então acaba por ser perverso ao quadrado.

Então abaixo a seriedade e o drama. Se você quiser escrever algo indutor de transtorno psicológico, como Ensaio Sobre a Cegueira, Um Copo de Cólera, Angústia e similares, mande uma jurinha de morte. Algo do tipo “tá fodido, de amanhã não passa – vai morrer, filha da puta” parece bom. Ganha pontos extras se escrito em sangue ou com picotes de jornal. Mais rápido, simples e eficaz que um livro enorme e cheio de figuras estilísticas e de linguagem. Poupa tempo de todo mundo, poupa árvores e gera empregos na polícia.

Podem argumentar que é difícil transformar tudo em comédia. Mas não é. É muito fácil. Veja, por exemplo, como poderia ficar uma notícia simples de jornal. Ela originalmente seria “Mãe de Seis Crianças Mata Três de Seus Filhos para Alimentar Cachorro”. Triste. Depressivo. Vamos mudar. Que tal “Mãe de Seis Crianças Mata Três de Seus Filhos para Alimentar Cachorro! Hahahahaha!”? Muito melhor, não? Se quiser apimentar ainda mais, tente “...e Aí O Português Disse 'Mãe de Cinco Crianças Mata Três de Seus Filhos para Alimentar Cachorro!' Hahahahaha!”. Entendeu a piada? O português é uma besta, errou tudo. A mulher era mãe de seis, não de cinco. Hahaha. Foda... Enfim...

Pros que dizem que humor pode ser inadequado às vezes, como, digamos, num livro didático, técnico ou filosófico, eu declamo que não. Não tem nada que nenhum filósofo tenha dito, em lugar nenhum, que não possa ser encontrado numa piada. Piadas didáticas podem ser criadas, também, embora não pareçam ter muito potencial cômico.

Vamos lá, pessoal. Não custa nada recompensar alguém por perder tempo com suas asneiras idéias com uma piadinha aqui e outra acolá. O mundo seria um lugar muito diferente se O Capital fosse um livro engraçado - pensem nisso.

Ah, o comediante ao qual eu me referi algumas vezes é o Rafinha Bastos. O mundo não seria muito diferente se ele fosse engraçado, mas podem pensar nisso também se sobrar um tempinho.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Reter Vôo: Paraquedismo

Outro dia nas minhas andanças eu vi uma cena muito curiosa. Um rapaz fez contato visual com uma fêmea da mesma espécie e pôs-se a dançar perto dela. Puxou um papinho babaca sobre amenidades e os dois foram dizendo algumas asneiras em uma comunicação desconfortavelmente esparsa até que o sujeito observado se inclinou para um beijo e foi recusado. Alguém menos atento poderia atribuir o fracasso do jovem ao seu bigode, à sua calvície, à sua braguilha aberta ou às horríveis marcas de queimadura que cobriam o lado de sua face oposto ao terrivelmente afetado pelo derrame. Mas eu, amigos, sei que o problema principal dele foi não ter o molejo conversacional necessário para garantir um intercurso sexual. E, na minha missão de bom samaritano, irei doar aqui algumas de minhas cantadas infalíveis para o domínio público. Com comentários para fácil entendimento do processo. Povoem a Terra, queridos.

Número 1: Arquétipo Perfeito:
Vamos começar com a cantada do arquétipo perfeito. É grande verdade que as mulheres não sabem o que querem, mas elas pensam que querem um rapaz bem-apessoado, inteligente, educado, surpreendente, atencioso, honesto, direto e humilde. Use isso contra elas. Apresente-se como tal e, confusas, elas vão dar para você antes de perceberem que esse modelo idealizado não é o que elas querem. Trocando em miúdos, a conversação vai ser exatamente assim:
Você vai chegar de smoking, não importando a ocasião. [bem-apessoado, ok?]
-Oi. Posso fazer sexo com você? [lembre-se: direto]
-Quê? [indica surpresa ou surdez, ambos pontos estratégicos valiosos para você]
-Eu queria saber se a gente pode fazer sexo, por favor. [entra a educação]
-Sai fora, seu louco. Vai pra longe de mim. [não obedeça, caso contrário você terá que gritar muito alto para completar o diálogo e isso pode fazer mal à sua garganta - pratique cantadas seguras]
-Por favor, vai? Pode ser ali num cantinho mesmo. É rapidinho. Coisa de vinte segundos. [mostre que você valoriza o tempo dela e seja humilde]
-[aqui ela ainda deve estar boquiaberta, olhando para sua cara, confusa, e você vai engatilhar uma explicação]
-Veja bem: eu sou educado e gostaria da sua permissão antes de fazermos sexo. Tenho certeza que você valoriza sua própria opinião no que diz respeito à sua sexualidade e prefere alguém como eu, um podófilo, ou seja, que gosta de ouvir a mulher dizer que pode, sim, ser comida, a um estuprófilo [palavras grandes mostram sua inteligência].
-Tem razão. Vamos.

Atalho:
Quando ela estiver boquiaberta, introduza seu pênis neste ponto vulnerável.

Número 2: Desarmando a Retórica
Para mulheres que mexam com artes e outras porcarias semelhantes, pose de intelectual criativo. Para isso basta um monólogo. Se a mulher resolver interrompê-lo, faça como de costume e ignore completamente:
"Veja bem: eu penso que hoje em dia as pessoas andam muito limitadas, bitoladas. Presas ao status quo e acostumadas ao zeitgeist. Nós devíamos estar sendo inovadores, sacudindo os fundamentos das idéias, baby. Mas isso está além do alcance de muitas pessoas, o que é esperado em uma sociedade na qual somos doutrinados desde a mais terna infância para pensarmos como todos os outros. Até nosso idioma é revoltantemente despido de originalidade. As palavras significam o mesmo para todas as pessoas. Que coisa ridícula! Deveríamos abolir dicionários. Faça algo comigo: vou pensar em uma palavra e atribuir a ela um novo significado, o primeiro que vier à minha cabeça. Por exemplo, à palavra 'sexo'. [Olhe para ela agora com afinco]. Tá, com essa não deu certo porque ela ficou igual. Vamos passar à palavra 'telégrafo'. Pronto. Agora a palavra 'telégrafo' significa, para nós, um sinônimo de 'sexo'. Para a próxima palavra, 'talco'. Vamos mudá-la para algo selvagem, animal. Que tal 'sexo'? Pronto, agora "talco" é o mesmo que 'sexo'."
Prossiga mudando as palavras até que qualquer conversação que vocês tentem depois seja sobre sexo e você está garantido.

Atalho:
Mude apenas as palavras "não", "jamais", "nunca" e similares para "sexo" ou "agora" e proponha um intercurso sexual. Ela não vai ter como negar.

Número 3: Gaantindo a Sobremesa No Jantar
Uma das minhas favoritas até por ser simples e curta. Dê um jeito de arrumar um jantar com o objeto de suas afeições e peça licença para "ir bater um mijão". Ao retornar à mesa, deixe seu pênis exposto, saindo pelo zíper da calça, e pare próximo à face de sua acompanhante. Caso ela o avise sobre a braguilha, você tem duas opções: a) finja sincero engano, peça desculpas e sente-se. Só então pergunte "mas e então... viu algo de que tenha gostado?"; b) pergunte "ah, quer que embrulhe pra você levar pra casa?". De qualquer jeito, é tiro e queda.

Atalho:
Tente, ao voltar o banheiro, aproximar bastante seu pênis, de forma a tocá-la. Isso já marca o início do ato sexual.

Número 4: O Aroma de um Sedutor
Outro método rápido, seguro e eficiente. Você vai tirar um paninho do seu bolso e perguntar à moça "ei, você acha que isto aqui está com cheiro de clorofórmio?". Sim, vai ter cheiro de clorofórmio. E você vai ter sexo. Algumas pessoas desgostam desse método, julgando-o equivalente a "por favor, senhor, eu gostaria de alguns minutos a só com o corpo, para me despedir" ou ainda a "Zé, põe esta peruca aqui", mas eu vejo distinções. De qualquer forma, use à vontade se você achar que é um método para você.

Atalho:
Aqui fica difícil porque já é um método rápido. Você pode chegar já com as calças arriadas e se acariciando, mas por algum motivo isso pode diminuir as chances da mulher concordar em cheirar o paninho que você oferece.

domingo, 31 de maio de 2009

Dama Ria de Dieta Himenial

-Tá com a grana aí?
-Acho que tô. Deixa eu ver aqui no meu bolso...
-Dá.
-Ih. Olha... não acho legal te pagar agora, não.
-Por quê? Tá sem dinheiro?
-Não é isso. Até tenho o suficiente. Mas por pouco. Se eu te pagar agora, o que me sobra não é suficiente pra me manter na minha classe social.
-Como é?
-Veja bem: se eu te der o meu dinheiro, vou pertencer a uma classe social mais pobre.
-Instantaneamente?
-Instantaneamente.
-Contando com o seu dinheiro do banco?
-Bom... não. Mas o dinheiro do banco não teria efeito em mim agora.
-Efeito? Como assim?
-Sabe como o homem é produto do meio? Então... nas circunstâncias atuais eu ia ficar muito pobre. O banco não está aqui presente com meu dinheiro, então não faz parte da minha realidade imediata e não influencia meu modo de pensar e agir.
-Bom... problema seu, né? Dá aí.
-Mas pense que isso acarretaria em nós talvez não sermos mais amigos.
-Como é?
-Você teria amizade com um pé-rapado? Não teria. Amizade entre pessoas de classes sociais diferentes sempre fica com um estigma ruim.
-Bicho, pára de divagar e me dá logo o meu dinheiro?

Ele deu. E, como profetizado, a amizade realmente não durou muito. Coisa de um segundo. Imediatamente após ficar sem dinheiro, ele quebrou um orelhão, tirou a camisa, gritou "vai, curíntia" e assaltou o credor. Retomou suas vestes toráxicas e faria o mesmo com a amizade se o outro componente da cena não tivesse ficado, depois do assalto, imediatamente sem dinheiro, procedendo por sua vez a assaltar da mesma forma e prendendo os dois em um looping infinito de violência, strip e odes ao pássaro preto.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Encher Só De Cu

Eu não achei que estivesse deprimido. Mas agora eu acho que mudei de idéia. Tudo estava legal até eu receber o seguinte anúncio do Google no meu Gmail: “Sente-se deprimido? - www.conhecerdeus.com/depressao - Deus quer ajudar-te Basta pedir-lhe”. Naturalmente eu imaginei que o filtro de palavras-chave do Adsense fosse uma porcaria e tivesse encaminhado um anúncio a alguém que não fazia parte do públio-alvo, até porque ultimamente não tem tido nenhuma conversa com o CVV na minha caixa de entrada. Mas, depois, olhando mais de perto, eu vi que tenho muito com que me preocupar e que o Google é muito mais sábio do que parece.

Minha caixa de entrada tem muito indícios de depressão. Nem sei por onde começar a relatá-los. Vamos lá, vejam se não é um mais triste que o outro:

*Um e-mail sobre “Magaiver” [sic] contendo a foto de um clipe;
*Um contendo uma tabela de conversão métrica de parafusos;
*Notificação de novo seguidor do Twitter (acho que só estar no Twitter já te qualifica para o anúncio relatado);
*Notificação de novo seguidor do Twitter (duplo!);
*Notificação de novo seguidor do Twitter (e ainda é tudo bot!);
*Longa discussão sobre Billy Bob Thornton (C-C-C-C-C-COMBO BREAKER);
*FW: Dioxina (não sei se mais grave é o assunto ou o “FW”);
*Diagrama elétrico de uma CB400 1983;
*Algo sobre um hipopótamo entrepreneur que maltrata seus funcionários;
*Resposta da BS Colway sobre a linha de pneus ecológicos (por quê, deus? Por quê?);
*FIA – Fundação Instituto de Administração: Pós-Graduação em Mercado Imobiliário (a cereja do bolo).

Eu naturalmente omiti todos os “Enlarge Your Penis NOW” e “Viagra: stop shooting pool with a rope!” respondidos por mim com “sim por favor preciso muito ajuda!!!” e outros de nível equivalente, mas mesmo após a censura, estou convencido de que tenho motivos para me enforcar. Então adeus, mundo cruel. Vejo vocês no inferno, que deve ser muito parecido com onde estamos agora, mas onde o correio eletrônico não tem nenhum filtro de spam.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Atual Panorama Social

-Vem cá, é o senhor que é o chefe da oficina aqui?
-Sou, sim, senhor.
-Então vem dar uma olhadinha no meu carro, faz favor?
-Claro. Cadê?
-Ali, ó.
-Ahã. E qual o problema que ele apresenta?
-Não está funcionando.
-Sim, senhor. Acho que já entendi o motivo.
-Assim, sem nem olhar de perto?
-Senhor, veja bem: o problema do seu carro é o tijolo.
-O tijolo? Essa é boa. E nova. Eu já levei a vinte mecânicos diferentes e tive vinte diagnoses diferentes. Sabe o porquê? Porque vocês são todos uns sanguessugas salafrários! Nem olham direito o carro e já saem culpando qualquer coisa, só pra ganharem uma grana fácil. Mas dizer que é "problema de tijolo" já é demais. Quanto é que o senhor cobraria pra resolver, se é que eu posso perguntar?
-Coisa de trinta mil reais.
-Trinta mil reais? Isso é mais caro que um carro novo! Não se tem mais decência neste país!
-Senhor, eu tenho mais de trinta anos de experiência como mecânico.
-E como cara-de-pau, também, eu imagino. Tá na cara que o problema é o carburador!
-Seu carro não possui carburador, senhor.
-Lógico que não. Isso é um problema, não é?
-Atualmente o carburador foi substituído pela injeção eletrônica em quase todos os automóveis, então não necessariamente. E não é essa a questão maior aqui. Deixe eu tentar explicar isso do jeito mais simples.
-Ah, mas isso vai ser divertido. Ilumine-me, deus da verdade.
-Tem um tijolo no carro do senhor.
-Sim, e daí?
-O problema é, especificamente, onde está o tijolo.
-Como assim?
-Ele está no carro todo. Se você tirar o tijolo, aliás, o que é que sobra?
-Nada.
-Certo. Isso não parece preocupante?
-Meu filho, se você tirar todas as peças de alguma coisa, nunca resta nada.
-Eu sei, senhor. Estou tentando chamar a atenção para o o que o senhor chama de carro ser um tijolo.
-Sim, eu sei. Você é um profissional horrível. Eu pedi um diagnóstico, não informações óbvias. Faz o segunite: põe um carburador aí. Eu pago.
-Certeza?
-Anda logo.
-Tobias, põe um carburador no carro do senhor, ali.
-Que carro?
-O vermelho. Entre os dois Chevettes.
-O tijolo? Como é que eu vou colocar um...
-Tobias, não discute! Põe o carburador. Agora, senhor, posso sugerir um serviço complementar, por mais vinte e nove mil e oitocentos reais, que dá direito a uma revisão geral com todas as peças necessárias inclusas?
-Tá achando que eu sou louco? Tá muito caro!
-Te dou garantia extendida.
-Ah... bom, então aí sim. É sempre bom ter uma segurança extra,
-Beleza. Ô Tobias, vê aí umas rodas, um motor, uns bancos, um chassi e uns paralamas ao lunático aqui. Manda o kit completo logo.
-No capricho, hein, Tobias?
-Ok. Estamos entendidos, então?
-Claro. Posso pagar com um cheque?
-Pode.
-Aqui está. Pode ser ao portador ou quer nominal?
-Senhor... eu lamento informar que eu acho que vamos ter uma discussão muito parecida a respeito do seu cheque. Mas isso pode esperar até a gente arrumar alguma coisa pra comer. Ele parece faminto.

Só

M: Atenção! Aqui é a polícia! Vocês estão cercados! Saiam com as mãos para cima!
L1: Ih, fedeu, maluco. Os hômi.
L3: A cana? Filhos dumas putas! Como é que me descobriram aqui?
L2: Provavelmente alguém tenha acionado o alarme. Ou talvez eles tenham um policial médium. Difícil dizer.
M: Atenção! Aqui é a polícia! Vocês estão cercados! Saiam com as mãos para cima!
L1: Vamo encher eles de chumbo, maluco! São só dois polícia.
L2: Ah, não. Você está sugerindo que nós atiremos em oficiais da lei?
L1: Não, porra, tô falando pra encher os polícia de bala, caralho.
L2: Peraí, peraí. A gente não tem que se precipitar e recorrer à violência, certo? Ninguém precisa se machucar aqui. A gente só veio pro banco pra roubar uma graninha pra gastar com drogas, pornografia e genocídio, nada de mais.
M: Atenção! Aqui é a polícia! Vocês estão cercados! Saiam com as mãos para cima! Sério, eu não vou falar de novo!
L2: Graças a deus! Seu imbecil, você acha que a gente vai sair com esse argumento? E vindo de vocês? Pensa comigo: se a gente é ladrão e vocês são a polícia, nosso objetivo é justamente fugir de vocês, certo?
M: ...
L2: Isso vai deixar eles confusos e pensativos por um tempo. Eu sugiro que a gente use esse tempo num experimento interpretativo. Faz assim: você vai ser a polícia e eu vou ser nós três.
L1: Maluco, pára de falar merda ou eu vou te meter pipoco, filha da puta.
L2: É uma interpretação meio rude e ofensiva, mas eu suponho que possa ser considerada realista. Muito bom. Deixa eu ver... então eu diria...
M: Atenção! Aqui é o Zeca Pagodinho! Deixa isso pra lá, vem pra cá, o que é que tem? Eu não tô fazendo nada, você também. É bom bater um papo assim gostoso com alguém.
L1: Aê, truta! Zeca Pagodinho tá aí. Bora encher ele de bala!
L2: Tentador. Mas eu infelizmente suspeito que seja mais um truque das forças mantenedoras do status quo.
L1: Cê tá falando cada hora mais difícil de poprósito, né?
L2: Possivelmente. Eu não quero entrar na questão do que seria ou não proposital ou até que ponto poderia algo qualquer sê-lo, já que isso envolveria uma longa discussão a respeito de livre arbítrio, envolvendo os preceitos mecanicistas do determinismo científico aplicado às condições biofísiológicas do cérebro humano...
P2: Tá, Zeca, valeu pela ajuda, mas eles não saíram nem por ti. Toma a grana da cervejinha que a gente tinha combinado. E agora, capitão?
M: Tem uma entrada no topo do prédio. Um de nós vai por lá e surpreende eles por trás.
P2: Não acho que vá funcionar.
M: Por quê?
P2: Porque você aparentemente esqueceu que está falando em um megafone, de modo que eles devem estar já vigiando as próprias cabeças, a menos que sejam surdos. Como eu acho que acabei de ficar.
L2: ...tabula rasa, então o contínuo esponjar intelectual de cada forma de vida é tão voluntário quanto o acendimento de uma maçã, se a maçã estiver ligada à rede elétrica e tiver filamentos incadescentes numa mistura gasosa em vez de sua tradicional polpa. Então...
L1: Precisa de bala de prata pra matar gente que fala difícil ou se eu atirar agora tu morre?
L2: Eu suponho que a resposta me deixaria em alguma desvantagem, julgando pelo seu olhar sanguinolento. Isso me lembra de uma passagem da Ilíada...
M: Aí, galera, de boa, oq ue é que está acontecendo aí? Sai logo, vai, porque daqui a seis minutos começa meu horário de almoço e eu vou ter que ir embora.
L2: Então vamos tentar resolver rápido com uma discussão objetiva, sim?
M: Tá. Qual é o seu nome?
L2: Antes disso, por favor perceba que o senhor está só do outro lado de uma porta de vidro e eu posso ouví-lo perfeitamente sem o auxílio do seu amplificador que, pra ser sincero, está machucando meus tímpanos.
P2: Eu falei.
P1: Tá, tá. Qual teu nome, cidadão?
L2: L2. E esses são meus irmãos L1 e L3.
P1: L1, L2 e L3? Qu e porra de nomes são esses?
L2: Excelente pergunta. Minha família toda tem nomes assim. Minha mãe se chama Hipotenusa.
P1: Ok. Pra simplificar mais, eu preciso saber que você representa verbalmente seu grupo como eu represento o meu.
P2: Infelizmente.
P1: Não tem nada de infeliz em saber qual deles representa melhor o grupo. Isso é um princípio democrático.
L2: Na realidade eu fico tentado a passar a palavra para meu irmão L1, que costumeiramente se sai vitorioso em discussões mais consistentemente que eu por sua total falta de domínio ou entendimento de retórica, o que o leva a usar a força e, dessa forma, ganhar por súbito W.O. Mas para o propósito de termos uma discussão mais divertida e produtiva em termos de vocábulos utilizados, eu mesmo posso prosseguir.
P1: Bicho, faz assim: eu te ouvi por uns segundos e já vi que vai ser um porre. O outro ali é esquentadinho. E teu outro irmão?
L2: O L3? Ele não fala muito e, quando fala, vá por mim, não é de muita serventia.
L3: Isso é um assalto, seu filha da puta! Vira a bundinha pra mim, vira, Batman.
P1: Peraí. Vocês estão roubando o banco?
L2: Sim. Não foi por isso que vocês vieram?
P1: Não, não. Meu deus. Peço desculpas a vocês. Nós viemos prender os bancários.
L2: Oi? Por que motivo?
P1: Bom, a gente não tem exatamente os detalhes legais ainda, isso a gente está bolando, mas é basicamente porque eles são todos uns vermes.
L2: Faz perfeito sentido para mim.
P1: É que agora passou uma reforma lógica social e a gente viu que os banqueiros são os maiores ladrões e verdadeiros cânceres sociais, então a gente vai remover todos. Os bancários entram nessa como cúmplices e por me fazerem esperar muito na fila com serviço mole.
L1: Dá tiro nesse comuna, L2. Dá tiro nele!
L2: Ah, bom. E como é que a gente faz quanto ao nosso roubo?
P1: Ah, tranqüilo, rapazes. Acabem o que vieram fazer e podem ir embora. Não quero atrapalhar o tabalho de vocês.
L2: Perfeito, então. Obrigado, seu guarda.
P1: Opa. A gente é que agradece e pede desculpas por qualquer coisa.

Infelizmente L1 perdeu a paciência com aquele falatório e tudo acabou em um enorme banho de sangue.